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май 29, 2026
Одна из 4 женщин не имеет прокладок во время менструации, и это «вершина айсберга», — говорит активистка
Одна из четырех бразильянок не имеет в наличии упаковки прокладок во время менструации, что составляет почти половину молодых женщин, испытывающих менструальную бедность.

TL;DR
- Исследование показало, что каждая четвертая бразильянка испытывает трудности с доступом к менструальным прокладкам, а 40% молодых женщин сталкиваются с этой проблемой.
- Менструальные боли мешают 60% школьниц посещать занятия, а 40% уже пропускали школу из-за них.
- Другие симптомы, такие как усталость, головные боли и боли в животе, также влияют на повседневную жизнь.
- Активисты подчеркивают, что менструальная бедность связана с более широким спектром нарушений прав, включая голод, безработицу и отсутствие санитарных условий.
- Программа "Достоинство менструации" направлена на обеспечение бесплатными прокладками, но сталкивается с цифровыми и бюрократическими барьерами, ограничивающими доступ уязвимых групп.
- Предлагаются пять стратегических направлений для улучшения программы, включая снижение зависимости от цифровых платформ, расширение критериев приемлемости и улучшение логистики.
- В Сан-Паулу был наложен вето на проект "Менструация без табу", расширяющий распространение прокладок, из-за утверждений о дублировании существующих программ.
- Образование в области менструации рассматривается как инструмент борьбы с гендерным неравенством и как стратегия общественного здравоохранения.
- В Национальном конгрессе рассматривается законопроект о предоставлении женщинам двухдневного оплачиваемого отпуска по менструации, но эксперты отмечают, что этого недостаточно для решения структурных проблем.
- Борьба со стигмой на рабочем месте и в обществе в целом является ключевым фактором для эффективности любой политики в области менструального здоровья.
A menstruação é um processo biológico comum que acompanha meninas e mulheres cisgênero, homens trans e pessoas não binárias durante toda a vida reprodutiva, estimada em cerca de 30 anos.
Uma em cada quatro mulheres brasileiras não tem um pacote de absorventes disponível quando a menstruação vem e isso representa quase metade das jovens em pobreza menstrual (40%), com dificuldade de acesso ao item, no país. Seis em cada dez estudantes do ensino fundamental e médio (60%) também afirmam que dores menstruais interferem na frequência às aulas, enquanto quatro em cada dez já precisaram faltar à escola durante o período menstrual. Para 58% as dores menstruais as impedem de frequentar a escola.
Os dados fazem parte de uma pesquisa que ouviu 2,5 mil estudantes, e 770 alunas que menstruam, além de 303 docentes e 181 gestoras escolares, das redes pública e privada de todas as regiões do Brasil, divulgada no dia 27 de maio pelos Institutos Alana e Equidade.info, véspera do Dia da Dignidade Menstrual, celebrado anualmente em 28 de maio. Os dados mostram o retrato da invisibilidade das dores físicas e sociais enfrentadas por mulheres em fase de menstruação.
Outros sintomas também impactam a rotina como cansaço e dores no corpo, mencionados por 30%; dores de cabeça, por 28%; dores abdominais, por 20%; além do medo de vazamentos e da vergonha, apontados por cerca de 19% das estudantes.
A pesquisa revela ainda que o problema começa antes mesmo da falta de acesso a absorventes: passa pelo tabu, pela desinformação e por uma implementação que não alcança quem mais precisa, segundo a fundadora e diretora executiva da organização social Digna Brasil, Larissa Agostini.
“O tabu faz com que meninas cresçam sem informação sobre o próprio corpo, escondam dor, sangramento e sintomas importantes. Mas também faz com que as próprias políticas sejam construídas e implementadas a partir do estigma”, diz.
Para a especialista, a saúde menstrual precisa ser tratada como direito social, porque está ligada ao direito à saúde, à educação, à assistência, à igualdade de gênero e à dignidade humana. Ela destaca que a pobreza menstrual é resultado não só de desigualdades socioeconômicas, mas se entrelaça a desigualdades de gênero.
“Reconhecer isso significa compreender que não estamos falando apenas sobre distribuir absorventes, mas assegurar condições materiais para que meninas, mulheres e pessoas que menstruam possam viver seus corpos com autonomia, cuidado e dignidade”, explica.

“Nos territórios, a gente vê que pobreza menstrual nunca vem sozinha. Ela aparece junto com fome, desemprego, ausência de saneamento, moradia precária, violência doméstica, dificuldade de acesso aos serviços de saúde… a falta do absorvente é só a ponta do iceberg para uma miscelânea de violação de direitos básicos fundamentais. É muito comum começarmos um atendimento sobre absorvente e terminarmos encaminhando aquela mulher para algum equipamento de proteção social ou da saúde, pois as vezes ela está há dez anos sem fazer o exame preventivo por exemplo”
Dados inéditos
A partir do trabalho em campo, ouvindo meninas e mulheres, e com uma perspectiva interseccional de gênero, raça, classe social e território, Agostini conta que observou lacunas no Programa de Proteção e Promoção à Saúde Menstrual, instituído pela lei 14.2014/2021, regulamentado pelo decreto n 11.432/2023. Foi quando ela começou a fazer uma coleta dados do acesso da iniciativa.
Atualmente, o programa garante absorventes gratuitos pelo Programa Farmácia Popular para pessoas inscritas no CadÚnico, mas se limita ao uso de celular com internet e conta no gov.br, o que para ela representa um “obstáculo que atinge justamente as mulheres em situações de vulnerabilidade social”.
Entre janeiro e dezembro de 2024, mais de 240,3 milhões de absorventes foram distribuídos, beneficiando cerca de 2,1 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade social ou baixa renda. O investimento no programa ultrapassou R$ 119,7 milhões. No primeiro ano da parceria, a iniciativa alcançou todos os estados brasileiros, contando com mais de 31 mil estabelecimentos credenciados e previsão de expansão da rede nos próximos anos.
“Nós produzimos dados inéditos sobre a implementação. Ao longo de dois anos, sistematizamos milhares de atendimentos em diferentes estados brasileiros e transformamos essa experiência em um diagnóstico técnico sobre barreiras de acesso ao Programa Dignidade Menstrual”, relata a especialista.
O resultado foi a produção de um relatório com direcionamentos e recomendações de melhoria do programa produzido pela Digna, que foi entregue ao governo Lula nesta quarta-feira (26) por meio do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. O relatório foi obtido com exclusividade pela Fórum. “Conseguimos transformar a vida vivida na favela em evidência e incidência política”.
No documento, a organização lançou recomendações em cinco eixos estratégicos para aprimoramento das políticas de dignidade menstrual no país. O primeiro é reduzir as barreiras criadas pela dependência excessiva de aplicativos e plataformas digitais no acesso ao programa. O segundo, a ampliação da elegibilidade, reconhecendo que muitas mulheres extremamente vulnerabilizadas seguem fora do CadÚnico e acabam excluídas da política.
Já o terceiro eixo aborda a ampliação da capilaridade territorial e logística da política, fortalecendo estratégias para alcançar regiões com baixa cobertura do Programa Farmácia Popular. O quarto eixo propõe o fortalecimento da integração interfederativa, buscando maior articulação entre União, estados e municípios. E o quinto eixo trata de governança, financiamento e monitoramento, defendendo mais transparência de dados, produção de indicadores e monitoramento contínuo da cobertura.
O relatório reuniu mais de 2,7 mil atendimentos feitos por meio do projeto da organização Mutirão Simplifica, em ações realizadas em periferias de São Paulo, Sergipe, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Dos casos analisados, apenas 534 resultaram na concessão do benefício, o equivalente a 19,76% da amostra.
“Os dados da Digna Brasil revelam que, de cada 5 mulheres que buscaram o benefício com auxílio da organização, apenas 1 conseguiu acessá-lo”, afirma o documento, que apontou algumas das principa causas disso.


“Durante toda a minha trajetória profissional sempre convivi com esse abismo entre a política pública escrita no papel e a vida real das pessoas. Muitas vezes, a lei existe, mas na ponta as pessoas continuam sem conseguir acessar,”, diz a ativista.
“Quando a política foi lançada, eu já imaginava que ela enfrentaria dificuldades para chegar às populações mais vulnerabilizadas, principalmente por depender de barreiras digitais e burocráticas muito distantes da realidade de quem vive nas periferias. Então eu comecei atendendo minhas próprias vizinhas, amigas e mulheres da minha comunidade, ajudando a emitir autorizações, explicando como funcionava o programa, tentando resolver problemas de cadastro e acesso. Fundei a Digna para ampliar a capacidade de resolver dificuldades estruturais de implementação. A partir do Mutirão Simplifica, conseguimos não apenas ampliar o acesso ao Programa Dignidade Menstrual, mas também construir um espaço de escuta e cuidado em saúde sexual e reprodutiva e em algumas ações também levamos acesso a contracepção”
Além disso, em 2023, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) vetou o projeto “Menstruação Sem Tabu”, que ampliava a distribuição gratuita de absorventes em São Paulo, alegando que outro projeto nos moldes “já existia” e que por isso, era “inconstitucional”. No entanto, o governo de São Paulo não possui um programa estadual próprio exclusivo para a distribuição de absorventes, apenas para as escolas e o sistema prisional. “O tabu faz com que a própria sociedade considere a menstruação um tema menor. E quando um tema é tratado como menor, ele recebe menos investimento, menos pesquisa, menos formação profissional e menos prioridade institucional”, argumenta Agostini.
‘Educação menstrual é ferramenta contra desigualdades de gênero’
Para Agostini, a educação menstrual é também “uma ferramenta de enfrentamento das desigualdades de gênero” e de estratégia de saúde pública. “A vergonha não nasce naturalmente. Ela é ensinada. A gente aprende muito cedo que menstruar é sujo, que sangue menstrual deve ser escondido, que dor é normal.. Isso tem consequências no atraso no diagnóstico de doenças, baixa procura por serviços de saúde, naturalização da dor, evasão escolar e dificuldade de reconhecer direitos. Pra mim educação menstrual é uma estratégia de saúde pública. É ensinar crianças, adolescentes e também adultos a compreenderem o corpo, reconhecerem sinais de adoecimento, entenderem direitos e acessarem serviços de saúde sem culpa ou vergonha.”
Este ano, a ativista desenvolveu um curso, intitulado “Educação Menstrual: Promovendo Saúde e Respeito”, para mais de 5 mil escolas da rede pública paulista, com a percepção de que “não bastava existir uma lei no papel”. “Era preciso fazer com que a política pública fosse compreendida, apropriada e implementada dentro da comunidade escolar”, disse.
“O recurso chegava às escolas, mas os gestores não sabiam exatamente como operacionalizar a compra dos produtos; em outros, a verba acabava sendo direcionada para outras demandas consideradas mais urgentes porque a menstruação ainda era vista como um tema secundário. Então construímos um curso muito abrangente, não apenas sobre saúde e educação menstrual, mas sobre a implementação da política no cotidiano escolar. Por isso, todos os funcionários, de diretores a cozinheiras escolares, tiveram acesso e um módulo específico para eles, porque são essas pessoas que convivem diariamente com os estudantes. Isso tem um impacto muito grande porque a escola deixa de enxergar a menstruação como um ‘problema individual’ e passa a compreender como questão de saúde, permanência escolar, combate às desigualdades e proteção social. Além disso, forma profissionais capazes de acolher sem constrangimento, orientar corretamente e construir fluxos internos para garantir acesso aos produtos e informação”
Existir sem esconder a dor
No Congresso Nacional, o Projeto de Lei 1249/22, de Jandira Feghali (PCdoB/RJ), estabelece o direito à licença para mulheres durante o período de menstruação. O PL já foi aprovado na Câmara e aguarda apreciação no Senado. O senador Laércio Oliveira (Progressistas-PB) é o relator na Casa. O texto prevê dois dias consecutivos de afastamento por mês. Para ter direito, é necessário apresentar laudo médico.
Na avaliação de Larissa Agostini, o projeto amplia o reconhecimento da saúde menstrual como uma questão que impacta diretamente a vida escolar, profissional e a qualidade de vida de meninas e mulheres. Ainda assim, ela afirma que a criação da licença, sozinha, não é suficiente para enfrentar os problemas estruturais ligados à pobreza menstrual e à falta de acesso à saúde.
“A discussão sobre licença menstrual é importante porque reconhece que saúde menstrual também impacta trabalho, carreira e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, a licença sozinha não resolve o problema. O texto do projeto propõe a necessidade de diagnóstico médico para acesso ao direito e isso abre um debate importante porque, na prática, muitas mulheres convivem durante anos com sintomas incapacitantes sem conseguir diagnóstico adequado.”
Segundo Agostini, diversos sintomas relacionados ao ciclo menstrual nem sempre se enquadram em diagnósticos clínicos específicos. “Muitos sintomas associados ao ciclo menstrual sequer cabem facilmente dentro de um CID específico. Mulheres podem apresentar crises intensas de enxaqueca, fadiga extrema, alterações gastrointestinais, sintomas emocionais severos ou agravamento de doenças crônicas relacionadas ao ciclo sem necessariamente terem um diagnóstico fechado de endometriose, por exemplo”.
A especialista completa que a efetividade de qualquer política sobre saúde menstrual depende do enfrentamento ao estigma ainda presente em escolas e ambientes de trabalho. Muitas mulheres continuam evitando relatar sintomas ou acessar direitos por medo de discriminação e prejuízos profissionais.
“É fundamental combater o estigma que ainda existe no mercado de trabalho. Porque nenhuma política terá efetividade se as mulheres tiverem medo de utilizar esse direito por receio de julgamento, discriminação ou perda de oportunidades profissionais. O desafio não é apenas criar uma licença, mas construir ambientes de trabalho que reconheçam saúde menstrual como um direito de saúde trabalhista”, completa.