A foto da infâmia e a reputação ilibada
Gilmar Mendes publicou um texto de cinco parágrafos defendendo Paulo Gonet. O procurador-geral, segundo o decano, tem “reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita”, reconhecida em todos os espectros. Mesmo assim, teria tido a honra “injustamente manchada” pelo levantamento do sigilo de conversas que “nada de ilícito retratavam”. O estrago, diz Gilmar, já estava feito: ninguém desfaz manchete com reparo tardio em plenário.
No segundo bloco, ele descreve a cena de terça-feira. O próprio relator, André Mendonça, reconheceu “em alto e bom som” que nada havia contra Gonet. “Nada. Então por que expor?”. Quem atesta a honra só depois de arrastar o nome pela praça pública não corrige erro — confessa que era evitável.
No terceiro, a acusação política. Mendonça publicou vídeo agradecendo apoio popular. Apoio a quê, pergunta Gilmar: a um ato que ele mesmo admitiu sem fundamento? “Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral.”
No quarto, a comparação com a Lava Jato. Deltan Dallagnol e Sergio Moro transformaram vazamento seletivo em método: criar o fato consumado antes da ação penal, colher dividendos e deixar a defesa correr atrás de um julgamento que a opinião pública já fez.
No quinto, o alvo. O levantamento apareceu às vésperas do 7 de Setembro para “inflar as ruas, arrancar dividendos políticos, sujar reputações e intimidar quem se opõe”. No fundo, diz Gilmar, o alvo é o direito de defesa de pessoas contra as quais esses agentes nutrem algo que se parece muito mais com vingança do que com justiça.
O texto é impecável na forma. O problema é o conteúdo.
Gonet aparece nas mensagens do celular de Daniel Vorcaro como alguém que sente saudades do banqueiro, torce por ele, aceita convite para degustação de charuto e Macallan em Londres e pede para o filho ir junto. O advogado Ciro Soares, intermediário, diz a Vorcaro que “Gonet é firme” e que “amizade é tudo”. O próprio Gonet admitiu o encontro e a ligação, mas classificou tudo como “brevíssimo e banal”. O Conselho Superior do Ministério Público marca para 25 de setembro a análise do caso.
Enquanto isso, o próprio Gilmar tem proximidade documentada com o Master. Reuniu-se com Vorcaro no gabinete do STF em 11 de abril de 2024, acompanhado de advogados do banco, para tratar de causa bilionária de precatórios. Votou contra os interesses do Master depois — o que não apaga o encontro. O ex-cunhado, Chiquinho Feitosa, tinha contrato de quinhentos mil reais por mês com empresa ligada a Vorcaro e ajudou a viabilizar a audiência. Gilmar diz que desconhecia as tratativas.
Há mais. A cúpula do Master tratava a advogada Dalide Corrêa, ex-diretora-geral do IDP — o instituto fundado por Gilmar — como “sócia do GM stf”. O banco pagou trinta e três milhões de reais ao escritório dela em 2024. O gabinete de Gilmar nega que ela tenha sido sócia do IDP e diz que ocupou cargo técnico. A advogada também nega. A PF não fez juízo final sobre a legalidade.
Gilmar defende a reputação ilibada de Gonet com a mesma veemência com que protege a própria. A foto da infâmia, no fim, é a mesma para os dois: o celular de Vorcaro não distingue entre quem sente saudades e quem recebe no gabinete. Gilmar é Gonet, Gonet é Gilmar.