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май 16, 2026

«Бразилия Африки»: как Гана превратила мяч в символ борьбы с колониализмом

В июне 2006 года я высадился в Аккре, столице Ганы. Моя задача, поставленная TV Globo, заключалась в том, чтобы освещать игры сборной Бразилии, которая участвовала в Чемпионате мира в Германии, в странах-соперниках Бразилии.

«Бразилия Африки»: как Гана превратила мяч в символ борьбы с колониализмом

TL;DR

  • Федерация футбола Ганы была основана первым президентом страны Кваме Нкрумой как инструмент антиколониальной борьбы.
  • Гана, известная как «Бразилия Африки», четырежды выигрывала Кубок африканских наций и добивалась успехов на молодежных турнирах.
  • Футбол в Гане является важной объединяющей силой среди более чем 70 этнических групп.
  • Национальная сборная Ганы, известная как «Black Stars», носит имя в честь ямайского националиста Маркуса Гарви.
  • Несмотря на успехи, сборная Ганы сталкивалась с трудностями, включая скандалы с бонусами и отток молодых талантов в Европу.

Em junho de 2006, a TV Globo enviou um repórter a Acra, Gana, para cobrir os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha.

Na época, Gana era chamada de “Brasil da África” e já contava quatro títulos da Copa Africana de Nações (1963, 1965, 1978 e 1982).

A federação de futebol ganesa foi fundada por Kwame Nkrumah, primeiro presidente após a independência, que via o futebol como ferramenta de luta anticolonial.

Nkrumah designou Charles Gyamfi, primeiro africano a jogar na Alemanha, como técnico da seleção, período em que o país conquistou o bicampeonato africano.

Em junho de 2006 desembarquei em Acra, a capital de Gana. A tarefa que me foi delegada pela TV Globo, então, foi acompanhar jogos da seleção brasileira, que disputava a Copa do Mundo na Alemanha, nos países adversários do Brasil.

No dia da partida, eu e a equipe fomos para a periferia da capital. Num espaço público, centenas de pessoas pretendiam ver o jogo em pequenas telas de TV, colocadas sobre bancadas de madeira. Gana já se orgulhava, então, de ser chamada “o Brasil da África”, na época tetracampeã do torneio mais importante do continente, a Copa Africana de Nações (1963, 1965, 1978 e 1982).

O sucesso ganês no futebol já tinha sido exposto nas categorias de base, com dois títulos mundiais no sub-17 e uma medalha de bronze nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992.

Derrotar o Brasil era um sonho de afirmação local. Enquanto o jogo não começava, nossa equipe despertou a curiosidade. Como é que se torce no Brasil?, alguém perguntou. Então, ensaiei com os presentes um animado “Olê, olê, olê, olá, Ganá, Ganá”. Os ganenses amaram.

Em Acra, 2006 (Foto: Arquivo)

Mas, o sonho local logo se desfez. Aos 5 minutos do primeiro tempo, Ronaldo fez o primeiro gol de um 3 a 0 duro de engolir — para eles. Nós, naturalmente, nos contivemos na torcida.

Afinal, sabíamos que em Gana o futebol é uma questão de soberania nacional.

Para se ter uma ideia, quem fundou a federação ganesa de futebol foi um dos heróis da luta anticolonial africana, Kwame Nkrumah, o primeiro presidente do país depois da independência do Reino Unido. Nkrumah escolheu pessoalmente como técnico da seleção nacional Charles Gyamfi, o primeiro africano a jogar na Alemanha.

Nkrumah assumiu em 1957 e presidia o país quando Gana se tornou bicampeã africana. O prêmio aos jogadores pelo bicampeonato foi uma casa.

“Independência agora, os Estados Unidos da África amanhã”, afirmou Nkrumah num famoso discurso. Ele foi derrubado em 1966 num golpe patrocinado pelo Reino Unido. Foi em plena Guerra Fria, quando o líder de Gana fazia uma viagem ao Vietnã e à China, países dos quais havia se aproximado — além da União Soviética.

Che Guevara e Kwame Nkrumah em encontro no ano de 1965 (Foto: Domínio Público, ampliada com uso de IA)

Nkrumah acreditava que o futebol poderia servir à causa anticolonial. Durante o governo dele, num périplo internacional, a seleção de Gana havia empatado com o Real Madrid e derrotado a Itália por 5 a 2, para delírio local.

Gana, hoje com cerca de 25 milhões de habitantes, é uma colcha de retalhos de grupos étnicos, ao menos 70. O futebol é uma das ligas para evitar conflitos locais. Como se sabe, ao partilhar a África os europeus desenharam as fronteiras nas pernas.

Pouca gente se lembra do boicote de seleções africanas à Copa do Mundo de 1966, no Reino Unido. As 15 nações africanas se negaram a jogar as eliminatórias alegando que era injusto disputar uma única vaga com os campeões da Ásia e Oceania. Outro motivo para o boicote foi a readmissão da África do Sul do apartheid pela FIFA em 1963. Em 1970, o Marrocos se tornou a primeira nação africana a garantir uma vaga direta na Copa do México, vencida pelo Brasil.

Hoje, uma estrela negra aparece no centro da bandeira de Gana. Black Star é o nome da praça mais importante de Acra e também o apelido da seleção nacional de futebol.

É uma homenagem ao jamaicano Marcus Mosiah Garvey Jr., um dos heróis de Kwame Nkrumah. Nacionalista negro, Garvey foi um dos fundadores da Black Star Line, uma empresa de navegação que pretendia transportar bens e eventualmente negros dos Estados Unidos e do Caribe de volta para a África. A empresa se tornou um importante alvo do Bureau de Investigação comandado por J. Edgar Hoover, que antecedeu o FBI.

O colonialismo britânico deixou marcas profundas em Gana, que foi sede do império Axânti na chamada Costa do Ouro. Na guerra colonial, o Reino Unido assaltou o tesouro local e colocou as peças valiosas — e simbólicas da identidade local — em seus museus. Para aplacar reivindicações de Gana, os britânicos emprestaram alguma peças para o museu da capital Axânti, Kumasi.

Gana é o maior produtor de ouro da África e é rica em diamantes, manganês, bauxita e petróleo. É um dos maiores fornecedores de cacau do mundo. A maioria da população ainda vive da agricultura. A China é o maior parceiro comercial. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, é médio (Brasil, 51,6; Gana, 43,5).

Uma particularidade de Gana é uma vibrante indústria do cinema baseada em Kumasi, a capital Axânti, batizada de Kumawood. Os filmes são gravados em twi, um dialeto que é o primeiro ou segundo idioma de 90% dos ganeses. Desconhecido no Ocidente, Alexander Kofi Adu é um ator reconhecido em todo o país. Agya Koo, o nome de tela, se tornou tão importante que fundou seu próprio movimento político: A Base, Gana em primeiro.

Mas o Parlamento de Gana ainda é dominado pelas duas forças tradicionais do país, o social democrata Congresso Nacional Democrata e o Novo Partido Patriótico, de centro-direita (há apenas quatro deputados que se declaram independentes).

Gana passou vergonha na Copa de 2014 no Brasil, quando um disputa por bônus e entre jogadores e técnico levou à expulsão de Boateng e Muntari da seleção. Gana arrancou um empate da campeã Alemnanha, mas foi eliminada na primeira fase depois de perder de Estados Unidos e Portugal. Com duas derrotas, voltou a ser eliminada em 2022.

Os fãs locais, como acontece no Brasil, culpam a imigração de jovens talentos para a Europa como um fator para os fracassos da seleção na Copa.

Porém, em 2026 pode ser diferente: quis a sorte que Gana caísse no grupo da Inglaterra, que vai enfrentar no dia 23 de junho, no estádio de Foxborough, em Massachusetts.

Os maiores craques de Gana jogam na Premier League. Muitos deles nasceram no Reino Unido, mas tem dupla cidadania. É o caso de Thomas-Asante, do Coventry City; Antoine Semenyo, do Manchester City e Jerome Opoku, que joga na Turquia.

É uma partida que deve enlouquecer a torcida dos Black Stars como a infeliz derrota para o Brasil, que testemunhei pessoalmente duas décadas atrás.