72 More Hours: Santiago Peña Uses Bolsonaro Tactic in Letter to Senate Regarding Ueno Bank
Santiago Peña requests an additional 72 hours to defend himself against impeachment following the Ueno Bank scandal. The timeframe echoes a Bolsonaro supporter slogan from 2022.

TL;DR
- President Santiago Peña requested 72 more hours to present his defense in the impeachment process related to the Ueno Bank collapse.
- The request was made to the President of Congress, Basilio Núñez, citing insufficient time to review a 15-page accusation and 300 pages of annexes.
- The 72-hour timeframe is compared to a slogan used by Bolsonaro supporters in Brazil after the 2022 elections, anticipating military intervention.
- Peña recently announced his resignation, but it was not accepted by Congress, meaning he remains in office and faces impeachment.
- The Chamber of Deputies approved the impeachment accusation against Peña for alleged poor performance of duties.
- Ueno Bank's operations were suspended on November 3rd, leaving customers without access to funds, including significant amounts from public entities like the Social Security Institute (IPS).
- Peña was a partner in the group that owned Ueno Bank until March 2025, after taking office.
- The Public Prosecutor's Office has indicted 27 individuals linked to Ueno Bank for alleged fraudulent operations.
- The Ueno Bank also sponsored an event in February at Donald Trump's Mar-a-Lago, attended by Eduardo Bolsonaro and strategist Fernando Cerimedo.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, pediu mais 72 horas para apresentar sua defesa no processo de impeachment aberto após o colapso do Ueno Bank. O prazo, solicitado nesta sexta-feira (6), é o mesmo do bordão que bolsonaristas repetiram depois da derrota de Jair Bolsonaro (PL) para Lula em 2022, quando esperavam, a cada três dias, uma intervenção militar que nunca veio.
Em carta ao presidente do Congresso, Basilio Núñez, Peña pede o adiamento do julgamento político marcado para as 10h desta sexta. Ele afirma ter recebido a notificação oficial só às 22h15 de quinta-feira (5), com uma acusação de 15 páginas e cerca de 300 folhas de anexos.
O pedido, registrado como notificação MHCS nº 4217, foi protocolado na Câmara dos Senadores. “Sem dúvida, um prazo inferior a 12 horas é insuficiente para que um processo cumpra os padrões de um Estado de Direito”, escreveu o presidente. Ele também diz precisar de tempo para escolher um advogado e examinar as provas.
Até a publicação desta reportagem, o Senado não havia decidido sobre o pedido.
As 72 horas do bolsonarismo
Depois do segundo turno de 2022, correntes de WhatsApp e Telegram garantiam que as Forças Armadas interviriam se os bloqueios de rodovias e os acampamentos em frente a quartéis durassem três dias. As mensagens se apoiavam numa leitura falsa do artigo 142 da Constituição.
O prazo vencia, nada acontecia, e uma nova corrente anunciava mais 72 horas. A expressão virou piada nacional e sinônimo de golpe que não chega.
Peña também ficou cerca de 72 horas sem falar pessoalmente à imprensa após a intervenção no Ueno Bank, segundo a imprensa paraguaia. Nesse período, só se manifestou por comunicados e redes sociais.
Santiago Peña renunciou, mas continua presidente
Na quinta-feira, Peña anunciou que renunciaria. O Congresso não votou a aceitação: parlamentares do Partido Colorado, legenda do presidente, deixaram a sessão conjunta e derrubaram o quórum. Sem a renúncia aceita, ele segue no cargo e responde ao impeachment.
A Câmara dos Deputados aprovou a acusação por 78 votos, unanimidade entre os presentes, a partir de pedido de 35 parlamentares por mau desempenho de funções. O Partido Colorado, de Peña e do ex-presidente Horacio Cartes, votou a favor.
No mesmo dia, os deputados rejeitaram o impeachment do vice-presidente Pedro Alliana, por 48 votos a 30. Se Peña for destituído, Alliana assume e completa o mandato, que termina em agosto de 2028.
Pelo artigo 225 da Constituição paraguaia, a destituição exige ao menos 30 dos 45 votos do Senado. A agenda oficial do Senado confirma a sessão extraordinária das 10h, presidida por Núñez.
Ueno Bank tinha dinheiro público e aposentadorias
O Ueno Bank foi um dos bancos que mais cresceram no Paraguai e chegou a cerca de 3 milhões de clientes. Em 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai anunciou a resolução da instituição, depois de constatar que seu índice de solvência estava abaixo da metade do mínimo legal.
As operações foram suspensas e os clientes ficaram sem acesso ao dinheiro. O banco guardava cerca de US$ 850 milhões (R$ 4,25 bilhões) de órgãos públicos, dos quais US$ 380 milhões (R$ 1,9 bilhão) do Instituto de Previsión Social (IPS), que paga aposentadorias e mantém serviços de saúde.
Peña foi sócio do Grupo Vázquez, dono do banco, até março de 2025, quase dois anos depois de tomar posse. Os deputados o acusam de conflito de interesses, de mudar regras a favor do grupo, de concentrar recursos previdenciários no Ueno e de afrouxar a fiscalização.
A acusação cita também a escolha de Carlos Carvallo para presidir o Banco Central em 2023. Antes, ele comandava a Financiera Ueno, que deu origem ao banco. Carvallo deixou o cargo após a intervenção. Peña nega irregularidades e diz ter se desligado do grupo.
Fiscalía acusa 27 pessoas
Em 4 de novembro, o Ministério Público paraguaio imputou 27 pessoas ligadas ao Ueno Bank e a empresas do grupo. Segundo a nota oficial da Fiscalía, há indícios de empréstimos a empresas do próprio grupo, operações sem garantias e falhas na documentação dos créditos.
As operações investigadas somam cerca de US$ 167 milhões (R$ 835 milhões) e mais 343,1 bilhões de guaranis. Os promotores também apuram a venda de uma carteira de crédito de US$ 74,4 milhões (R$ 372 milhões) a uma empresa que teria pago com dinheiro saído, por vias indiretas, do próprio banco.
A Fiscalía abriu ainda três investigações sobre a fiscalização do banco, o uso de recursos públicos e a conduta de autoridades e ex-autoridades. Uma delas soma novas acusações a uma denúncia já apresentada contra Peña.
Clientes esperam o dinheiro de volta
A lei paraguaia garante depósitos de até 228,3 milhões de guaranis por cliente. O Congresso aprovou uma medida extra que libera adiantamentos de até 40 salários mínimos, ou 121,76 milhões de guaranis.
O Banco Central informou que a primeira leva de pagamentos vai para quem tem até 10 milhões de guaranis depositados, não deve ao Ueno e tem conta em outro banco. A suspensão dos saques provocou protestos em Assunção.
Banco patrocinou evento com Eduardo Bolsonaro
Como a Fórum revelou, o Ueno Bank patrocinou em fevereiro a Hispanic Prosperity Gala, encontro da direita internacional no clube Mar-a-Lago, de Donald Trump, na Flórida.
Estavam lá Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o estrategista argentino Fernando Cerimedo, que espalhou acusações sem provas de fraude nas eleições brasileiras de 2022. O banco figurava na cota Diamond, anunciada por US$ 100 mil (R$ 500 mil). O valor pago não foi divulgado.