Fora Alcolumbre!
As mensagens que a Polícia Federal extraiu do celular de Daniel Vorcaro e a Veja publicou ontem são um documento histórico da República. No dia em que Alcolumbre foi reeleito presidente do Senado, o banqueiro mandou parabéns e o senador respondeu: “Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo seu carinho e amizade fraterna! Gratidão!” Dois meses depois, o mesmo homem que preside o Congresso escreveu: “Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!!” Vorcaro retribuiu com cinco emojis de coração e a promessa de estar “a qualquer tempo pra qualquer coisa”.
A defesa do senador já saiu com a nota padrão: mensagens de teor pessoal, sem ilegalidade alguma, sensacionalismo barato, vai à Justiça. Clássico. O mesmo senador que negou conhecer Vorcaro agora aparece como irmão de sangue do dono do Master, que organizava festas com “aquela de 3 metros” e mandava recado de “traje todo preto”. E tem mais: uma delação não aceita citava um repasse de 30 milhões de dólares para uma conta secreta de Alcolumbre no exterior. Trinta milhões. Em dólar. Em conta secreta. Coisa de irmão mesmo.
O mais engraçado é a ironia involuntária. O senador que aprendeu a falar pelo Google Tradutor, segundo o próprio Fábio Faria no grupo Macallan, agora precisa de um tradutor para explicar por que o presidente do Congresso chama banqueiro investigado de “meu amor”. As dancinhas famosas de Alcolumbre, aquelas coreografias ensaiadas para câmera, ganham um novo sentido: o homem dançava para a plateia, mas o coração batia no ritmo do Master.
Fica inviável ter um sujeito desses na presidência do Congresso. Não por moralismo de bancada, mas por aritmética institucional: quem preside o Senado precisa abrir CPI, convocar ministro, fiscalizar o Executivo. Alcolumbre resistiu à CPI do Master, ignorou ofício sobre visitas de Vorcaro ao Senado e negou à PF a lista de visitantes do gabinete de Jaques Wagner. O presidente do Congresso não pode ser sócio de um banco em liquidação. Pode ser irmão, pode ser amor, pode ser o que quiser na vida privada. Mas na vida pública, a República não aceita esse tipo de parentesco.